quinta-feira, 29 de outubro de 2015

J´aime randonnée ou, em emigra, o que eu gosto mesmo é de randonar


E perguntam vocês: o que é que se faz nas montanhas ao fim de semana? Pastam-se as vacas? Salta-se monte fora com as cabrinhas, qual Heidi? Bem, também é possível. Mas uma das atividades que fizémos muito este verão, ao fim de semana, foram os trek ou randonnée, quer nos Alpes suíços quer nos franceses. E um dos favoritos foi, sem dúvida, o do Lac Blanc a 2352m, na zona francesa dos Alpes bem perto de Chamonix Mont-Blanc. Um trek com vistas do outro mundo sobre o maciço do Monte Branco e os três galciares (bossons, argentière e mer de glace).
 
Glaciar de Argentière
 
Existem três possibilidades diferentes para o início do trek: começar em Tré-le-Champ perto de Argentiére; começar na estação de teleférico de La Flégère ou, aquela que foi a nossa opção, da estação de Index no cimo de La Flégère.

Como levávamos o pequeno Magno e os seus 13 Kg às costas, escolhemos começar no Index e não na Flégère pelo facto de o desnível ser aí menor. Começaríamos mais altos, é verdade, mas apesar do precurso ter muitas subidas também tinha descidas para ir aliviando as pernas. A desvantagem em relação ao começo pela Flegére é o piso, que por ser menos usado, é muito mais irregular e pedregoso.
Para regressar optámos por descer até à Flegére para daí apanhar o teleférico de volta.
O percurso leva cerca de duas horas para cada lado a que acresce, naturalmente, o tempo no lago. No nosso caso ficámos cerca de uma hora no lago a lanchar e apreciar as vistas.
 
Lac Blanc
 

O teleférico de La Flegére apanha-se em Les Praz de Chamonix, a cerca de 3 Km de Chamonix em direção a Argentiére. O estacionamento é gratuito e, para quem não tiver carro, dá para apanhar na cidade os pequenos autocarros grátis “le mulet” até lá.
Comprámos bilhete de teleférico de ida até ao Index e volta pela Flégere por 24€ cada (crianças não pagam até ao 4 anos mas também andam, yupi!!).
Na Flégere é preciso sair do teleférico e passar para umas cadeiras abertas com uma pequena barra de proteção para subir até ao Index. Para o Magnífico foi uma estreia em cadeiras deste tipo mas adorou e assim já não estranha quando tiver de andar nelas este Inverno quando se iniciar no ski. Aliás, adorou todo o trek até ao lago. Já a descer veio a dormir boa parte do caminho J
 
 

 

Outros trek que aconselho vivamente são o dos cinco lagos e o das marmotas em Zermatt e ainda os que se fazem na zona do famoso trio montanhoso Eiger, Monch e Jungfrau. Não vou descrevê-los em detalhe porque era coisa para uma dúzia de páginas mas se alguém precisar de alguma informação é só perguntar. E vão. Vão mesmo. São caminhadas muito tranquilas e que não requerem nenhuma condição física extraordinária.

acho que um dia ele vai gostar muito de ver estas fotografias

 
Costumo dizer que uma das grandes diferenças que tenho notado em viajar ou fazer atividades com crianças são os detalhes. Normalmente, faria o trek caladinha e, claro, a apreciar a paisagem. Com miúdos tudo é novidade. Tudo é interessante. O mundo é um parque de diversões. Todas as flores, pedras e bichinhos pelo caminho são analisados ao detalhe. Tudo lhes tem de ser explicado e faz com que para nós, adultos, tudo seja também uma (re)descoberta.
 
and going to the mountains
 

Kit para quem leva crianças:

- criança;
- cadeira de transporte em montanha (a nossa é uma Osprey Poco Premium). Para quem não tem é possível alugar uma por 10€/dia nas lojas de montanha de Chamonix;
- criança besuntada em protetor solar;
- Chapéu de sol;
- água e comida.

 

 

 

 


 

 

 

 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

De Munique à Eslovénia numa bota voadora


No primeiro dia de viagem conseguimos chegar a Munique já perto da noite.

A ideia era jantar e dar um passeio noturno pelo cento da cidade. Já conhecia muitas cidades alemãs mas, ao contrário do homem, não conhecia Munique. Pois, era um bom plano no campo das ideias mas ainda nos faltava a 2.ª lição em tempo real de “como ser caravanista para totós”...
Ao contrário da pequena Van, que conseguíamos estacionar em qualquer lado, a Vandonga é grande e precisa de pelo menos dois lugares de estacionamento normais. E, claro está, os lugares em parques subterâneos não são opção. Demos muitas, muitas, muitas voltas à cidade mas não conseguimos lugar. Nada. Hoje já conhecemos algumas aplicações para caravanistas que dão alguma ajuda nesta matéria mas na altura não as conhecíamos...
Enfim, desitimos e dormimos na coordenada GPS N48º 02´ 22´´ E11º 39´38´´, acho que pode dar jeito a quem venha a passar por lá.

De manhã seguimos rumo à Austria. Já tinha estado em Viena mas tinha uma grande curiosidade em conhecer Salzburgo. E desta vez tivémos mais sorte. Conseguimos um estacionamento muito central num parque exterior pago e lá fomos conhecer o centro histórico, envolvidos pela amena temperatura de 2.º. O centro é pequenino e em três horas dá para ver tudo. A casa onde Mozart nasceu, a casa onde Mozart viveu, o palácio Mirabell e as catedrais do centro histórico. Mas do que eu mais gostei foram os mercadinhos de Natal que brotavam como cogumelos pelas ruas. Apetecia trazer tudo e atulhar a caravana. Felizmente, acho eu, quando já estava a fazer contas aos metros quadrado disponíveis, o Magno resolveu entrar em cena e começar a atirar fora as botas de neve com uma espécie de pontapé no ar. A sério, não sei como é que ele fazia aquilo. Mas no espaço de minutos conseguiu atingir a cabeça de dois japoneses e um casal Árabe. Comprei-lhe um pão numa padaria a pensar distraí-lo com comida (golpe baixo) mas o miúdo era mesmo bom naquilo e conseguia comer e atirar botas ao mesmo tempo. Desistimos Resolvemos ir almoçar. Como a festa continuou pelo caminho fora, tirámos-lhe as botas e foi de meias, sentado no carrinho, claro, sob o olhar curioso dos outros turistas e locais que nos lançavam olhares do tipo: estes gajos devem vir da Sibéria ou o raio ou então são americanos... com o bebé só de meias... deve ser para ficar rijo...*
 
As botas
 
 
E de Salzburgo lá seguimos até à Eslovénia onde nessa noite dormimos num estacionamento mesmo junto ao Bled Camping (N46º 21´46´´ E14º 04´50´´). Assim, à descarada. E a Eslovénia, bem, a Eslovénia tem tanto de pequenina como de bonita. Acordar junto ao lago Bled, envolto num manto de nevoeiro, com a pequena igreja a pairar no meio do lago sobre a minúscula ilha de Bled com o recorte do castelo, adivinhem... de Bled , foi das experiências mais etéreas que vivi. Enchemos para aí um cartão de fotos cada um e só não estamos ainda por lá a fotografar porque o bebé Magno mandou dois berros como quem diz: meus amigos, a poça de água é muito bonita, mas ou me deixam chafurdar nela ou vamos dar comida aos patos. Escolham! Fomos dar comida aos patos que a água estava a modos que fria...

O castelo, com o nome muito original de Bled, também vale cada cêntimo dos 8€ por pessoa que custa a visita. Ergue-se a 100 metros sobre o lago e tem um estilo medieval e fantasmagórico daqueles que aparecem nos filmes de terror serie B. Estive até ao fim na expetativa que aparecessem dois ou três vampiros mas nada, nem um.
os homens no castelo
 

E estão vocês a pensar: isso é tudo muito giro mas o que é que se come nessa bela localidade, Bled? Não sei. Comemos comidinha caseira/caravaneira na autocaravana. Mas se quiserem falar da gordice de nome kremna rezina, o bolinho típico da terra com muitas semelhanças ao nosso bolo russo, que se vende um pouco por todo o lado na cidade, só posso dizer-vos que comam quantos conseguirem que aquilo é mesmo muito bom.
 
o lago em momento D. Sebastião
 

De seguida lá fomos a rebolar de volta à Vandonga e fizemos os 26 Km até ao lago Bohinj. Há uma eterna discussão em curso sobre qual dos dois lagos é o mais bonito. Tipo, quem é mais gira: a Angelina Jolie ou a Chalize Theron? Mas são os dois lindos de um modo diferente e não se fala mais nisso.

Nessa noite estava planeado dormirmos novamente junto ao lago Bled e partirmos de manhã, mas o homem começou a ficar impaciente e quis partir para Ljubljana, capital da Eslovénia. E eu só lhe disse: não é tarde nem é cedo, vamos só encher mais um cartão com fotografias do lago em modo pôr do sol e vamos. E fomos.

 

* No baby were harmed in the making of this visit… o bebé Magno tinha meias calças e meias grossas de lã.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Mas que raio é isso da Vandonga?


No ano da graça de 2014, tinha o Magnífico 15 meses, fomos até aos Balcãs.
Fomos em Dezembro, portanto, em pleno Inverno.
Fomos na autocaravana que tínhamos comprado há 15 dias e que ainda nem sabíamos bem como funcionava.
Não estava nos planos, mas passámos a noite de Natal em Berat, na Albânia.
Bem, se calhar é melhor contar como tudo começou...
 

Há muito que sonhávamos com uma autocaravana. Antes do Magno fazer a sua première na nossa vida, a nossa pequena van, uma pequena citroen com uma cama atrás, chegava perfeitamente para nós. Durante algum tempo também deu para o Magno e fizémos algumas viagens a três na nossa Lulu, como carinhosamente lhe chamávamos. Mas chegou um momento em que sentímos que era a altura de dar o salto e cumprir o sonho: comprar a autocaravana.

Com um orçamento limitado e muita pesquisa, finalmente encontrámos um casal suíço de meia idade que tinha para venda a sua autocaravana e que, em duas semanas, se tornou a nossa autocaravana. A nossa Vandonga. Sim, damos nomes aos carros :)
 
                                                                      (A Vandonga em Sarajevo)

Loucos de alegria e com quase três semanas de férias para gastar, 15 dias depois da aquisição, rumámos para os Balcãs. Não tínhamos um percurso muito estruturado. Apenas alguns sítios onde queríamos mesmo ir e a consciência de que quando faltasse uma semana para as férias acabarem, provavelmente, era melhor começar a fazer o caminho de volta.

Saímos de casa com duas botijas de gás, provisões para os primeiros dias e sem água no tanque. Já tínhamos comprado a mangueira para o abastecimento e encheríamos o tanque no primeiro posto de combustível que tivesse suporte a autocaravanas. Perto de Bern, ainda na Suíça, encontrámos um e fomos abastecer. E foi aí, ainda tão perto de casa, que sentimos que se calhar, só se calhar, as explicações do senhor que nos vendeu a autocaravana não chegavam e que ainda tínhamos muitas para levar no caminho. Tínhamos comprado uma mangueira cheia de buracos, daquelas cheias de furinhos para a rega e que levou a que demorasse mais de uma hora a abastecer e um dilúvio de água desperdiçada à nossa volta. Somos muito bons a comprar material de jardinagem :)

Mas lá seguimos para uma viagem que se revelaria alucinante: Alemanha; Áustria; Eslovénia; Croácia; Bósnia Herzegovina; Montenegro; Albânia; Macedónia; Kosovo e Sérvia.

Nessa noite dormimos numa zona comercial perto de Munique. Mas falaremos disso no próximo post...


                                                                   (lago Plitvice na Croácia)

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

you know you´re not in Kansas anymore...

                                       (Magnoífico a treinar duro a meio do trek em Zermatt)
 
 
- A maior parte dos dias pensas que estás a viver num postal;
 
- A reciclagem é elevada a religião e todos os sábados, já que ao domingo é proibido, como um bom suíço, reciclas cada papelinho como se não houvesse amanhã;
 
- Achas perfeitamente normal teres um abrigo nuclear no teu prédio e até gostas;
 
- Cumprimentas cada pessoa que passa por ti, à boa maneira suíça, com um "bonjour" efusivo e quase histérico mas nada de conversas depois disso;
 
- Tens uma vista de tua casa pela qual o resto do mundo tem de poupar durante um bom tempo só para a poder visitar;
 
- Vais aos supermercados Migros e Coop comprar maçãs a 5€ o Kg, pão a 4€ cada e iogurtes a 1€ e nem pestanejas. Mentira. Ainda não consigo fazer isto... continuo a olhar para os preços e a pensar: WTF, isto é um código de barras, um n.º de telemóvel?! Putain!! Isto é o preço!!
 
- E sim, praguejas em francês e parece que estás a recitar poesia;
 
- E por nada deste mundo perdes uma oportunidade de atravessar a fronteira todas as semanas para fazer compras nos países da UE;
 
- Aguardas com ansiedade que te parem na fronteira para te perguntarem se trazes carne contigo, respondes orgulhosamente que és vegetariana e, invariavelmente, nunca acreditam em ti;
 
- Vais tratar de um qualquer assunto burocrático e constatas, em choque, que tudo flui com facilidade, eficiência e rapidez;
 
- Cada vez que queres fazer um passeio até uma cidade vizinha tens de atravessar pelo menos um lago e uma montanha;

- Cada vez que vais comprar os sacos do lixo taxados do cantão, obrigatórios e a 2CHF cada, ainda dás por ti à procura do símbolo Chanel ou o se as letras no saco estão debruadas a ouro;
 
- Aguardas o Inverno com grande entusiasmo e fazes a checklist: trocar os pneus do carro para os de Inverno; verificar se o material de ski está em condições; ir buscar as botas de neve e os casacos de penas à arrecadação;
 
- Vês as crianças a brincar na rua, sem supervisão parental, quer chova, neve ou faça sol;
 
- Os miúdos trepam às árvores perante o gáudio dos pais e quando caem só se houver sangue é que os ajudam a levantar;
 
- Vês uma promoção de algo a - 20% e dás pulos de alegria. Sim, por aqui raramente vão além disso;
 
- Todos os espaços comerciais fecham ao Domingo e achas muito bem;
 
- Descalças-te sempre que chegas a casa e tens um kit de pantufas para as visitas;
 
- Se alguém faz barulho depois da 9 da noite ponderas seriamente chamar a polícia;
 
- Ficar acordado depois das 10 da noite é o equivalente a fazer uma noitada;
 
- Quando vais a Portugal achas tudo desorganizado, barulhento e sujo. Calma, também achas tudo barato, a comida toda boa e as pessoas muito comunicativas;
 
- Vais a 120Km/hora na autoestrada e sentes-te um "racer" com todos os ferrari e Lamborghini à mesma velocidade que tu. Sim, por aqui cumpre-se escrupulosamente os limites de velocidade. A partir dos 200km/hora o carro é definitivamente apreendido para o estado assim como a carta de condução;
 
- Andas a ponderar seriamente comprar uma trotinete. Todos os adultos têm e andam com uma e estás a sentir-te uma outsider sem uma;
 
- Lavas a roupa na máquina de lavar comunitária do teu prédio e começas a pensar porque é que no teu país de origem, um dos mais pobres da Europa, isto não existe, e aqui, o país mais rico do mundo, isto é o normal;
 
- Vais a Portugal passar uns dias e perguntas aos teus amigos e família o que acham de ter um ex primeiro ministro preso, um vice primeiro ministro com constantes suspeitas de corrupção num caso de compra de submarinos ou uma abstenção vergonhosa de quase metade da população nas últimas eleições e, quase todos, reagem com a indiferença de quem já se habituou e acha normal. E dás por ti a pesquisar no Google: "how to acquire the swiss citizenship";
 
- Vais fazer um trek no teu quintal, aka montanha ali ao lado e, quando te estás a sentir a maior da tua aldeia com a velocidade e segurança da tua passada, és ultrapassada por uma série de senhores e senhoras de 70 anos para cima e ficas a sentir-te um cocó;
 
- Vais escalar e, ao contrário do que sucede no teu país de origem, em que a zona de escalada mais parece uma festa da mangueira, vês famílias inteiras com gente de todas as idades a fazer vias;
 
E pronto. É isto. De nada.